segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Um colete amarelo, numa sacada de apartamento em Paris?


Sim, na sacada de frente ao apartamento que morei com minha esposa, por trinta dias em Paris, havia um colete amarelo estendido. É engraçado lembrar desse episódio que ocorreu no nosso primeiro final de semana nesta cidade. Estendido na sacada vizinha estava um colete amarelo. Nunca imaginei deparar-me com tal fato. Eu estava preparado para ver nas sacadas alguns vasos de flores, ao considerar que em novembro as flores já tinham se despedido; algumas cadeirinhas de ferro, com uma mesinha; ou ainda, a simples beleza da sacada, sem nenhum ornamento especial, em sua nudez. 
Foi ele, o colete amarelo, quem primeiro chamou nossa atenção na sacada. Não foi uma pessoa, nem um vaso sem flores ou a sacada em sua nudez. Deparamo-nos com uma sacada vestida com um colete amarelo resplandecente. Perguntei-me: será que na terra da moda até mesmo a sacada não aceitaria passar pelo tempo sem se fazer perceber? Bom, foi esta sacada, estranhamente vestida, que nos acolheu em nosso primeiro final de semana em Paris, no dia 17 de novembro de 2018. Por força do destino, foi neste mesmo final de semana que começaram as manifestações do Mouvement des Gilets Jaunes (tradução livre, Movimento dos Coletes Amarelos).
A sacada vestida com seu colete amarelo não mais estava paralisada no tempo, ela não era somente mais uma sacada. Aquele colete fazia dela contemporânea do fato histórico que estava a emergir. Sim, estamos diante de uma sacada engajada com o seu mundo, que não só está aí, mas que se faz ver e se faz participante do seu período histórico. Nada de ser uma sacada apática, que olhava o movimento acontecer. Esta sacada reivindicava o movimento, reivindicava para quem a olhasse uma postura, de se fazer solidária ou não a causa por ela defendida. Era muito difícil passar por ela e manter-se indiferente. Uma sacada que por mais antiga que fosse, não aceitava se fazer longe do seu presente.    
Sacada milenar, guardiã da história do seu país, naquele momento, não dava destaque a uma bandeira específica; sua roupa não era de um partido ou da sua nação, mas evidenciava a luta de uma classe social. Sim, não se engane, a sociedade está dividida em classes. Talvez você se lembre de sua sala de aula, daquele momento, nem sempre fácil, de fazer grupos. Tente agora se lembrar daquele momento que o professor(a) solicitava a união da sua classe com a de mais três coleguinhas. Como era difícil unir sua classe com aquele(a) colega que você não tinha muitas afinidades. Algo semelhante acontece em nossa sociedade, no entanto, quando tratamos da questão de classe econômica, não lhe é dada a possibilidade de escolher com quem você vai se unir. É como se você chegasse na sala e seu lugar e a sua classe já estivessem determinadas, como também, com quem você pode fazer ou não grupo.
Salvo algumas exceções, as relações sociais acabam se fortalecendo entre semelhantes, entre pessoas que compartilham um mesmo modo de consumo, um mesmo espaço de lazer, ou ainda, um mesmo estilo de vida. O que normalmente marca a união dessas pessoas, num primeiro momento, não são as suas escolhas, mas o padrão econômico herdado, isto é, o simples fato de terem nascidos em grupos mais ou menos favorecidos economicamente. Ou você acha que é um simples acaso o número de tramas de novelas ou de filmes que abordam o milagre da paixão como fenômeno capaz de romper o isolamento econômico entre classes econômicas distintas?       
Deste modo, a sacada, vestida de colete amarelo, negava o absurdo de passar desapercebida pelo mundo. Vestia-se com aquele colete em prol de uma classe social específica. Era a classe daqueles que estavam sendo prejudicados pelo aumento dos impostos sobre produtos energéticos, tais como a gasolina, derivado do petróleo. O colete amarelo, não era qualquer colete amarelo, mas estava carregado de simbolismo, sua existência se dava em função de uma classe da sociedade francesa, a classe dos consumidores de combustível; e sua utilização trazia a memória uma nação não muito afetuosa com qualquer populismo político.
Todo sábado que lá estivemos – eu alguns mais que minha esposa –, encontrávamos aquele colete vestido pela sacada também nas pessoas. Nas esquinas das ruas, lá estavam os coletes amarelos conversando sobre os rumos da França. Foi a sacada que nos ensinou que o povo francês não só guarda em seu tecido neuronal a memória viva das lutas travadas no passado, como as deixa vivas até o período presente. Povo que compreendeu, desde a Revolução Francesa, que a história da sua cidade e de seu país somente será contata a partir da participação direta da população. O protagonismo da história não é terceirizado. Agora, eu, aqui em meu país, fico pensando se alguma de nossas sacadas se atreveria a lançar alguma moda. Será que um dia teremos sacadas tão criativas e engajadas com o presente? Ou será que o destino nos pregou uma peça e fez de nossas sacadas simples varais de cortiços?