Sim, na sacada de frente ao apartamento que morei com
minha esposa, por trinta dias em Paris, havia um colete amarelo estendido. É engraçado
lembrar desse episódio que ocorreu no nosso primeiro final de semana nesta
cidade. Estendido na sacada vizinha estava um colete amarelo. Nunca imaginei deparar-me com tal fato. Eu estava preparado para ver nas sacadas alguns vasos
de flores, ao considerar que em novembro as flores já tinham se despedido; algumas
cadeirinhas de ferro, com uma mesinha; ou ainda, a simples beleza da sacada,
sem nenhum ornamento especial, em sua nudez.
Foi ele, o colete amarelo, quem primeiro chamou nossa
atenção na sacada. Não foi uma pessoa, nem um vaso sem flores ou a sacada em sua
nudez. Deparamo-nos com uma sacada vestida com um colete amarelo resplandecente. Perguntei-me: será que na terra da moda até mesmo a sacada não aceitaria passar pelo tempo sem se fazer perceber? Bom, foi esta sacada, estranhamente
vestida, que nos acolheu em nosso primeiro final de semana em Paris, no dia 17 de
novembro de 2018. Por força do destino, foi neste mesmo final de semana que começaram as
manifestações do Mouvement des Gilets
Jaunes (tradução livre, Movimento dos Coletes Amarelos).
A sacada vestida com seu colete amarelo não mais
estava paralisada no tempo, ela não era somente mais uma sacada. Aquele colete fazia
dela contemporânea do fato histórico que estava a emergir. Sim, estamos
diante de uma sacada engajada com o seu mundo, que não só está aí, mas
que se faz ver e se faz participante do seu período histórico. Nada de ser uma sacada apática, que olhava o movimento acontecer. Esta sacada reivindicava o movimento,
reivindicava para quem a olhasse uma postura, de se fazer solidária ou não a causa por ela defendida. Era muito difícil passar por ela e manter-se indiferente. Uma
sacada que por mais antiga que fosse, não aceitava se fazer longe do seu
presente.
Sacada milenar, guardiã da história do seu país,
naquele momento, não dava destaque a uma bandeira específica; sua roupa não era
de um partido ou da sua nação, mas evidenciava a luta de uma classe social.
Sim, não se engane, a sociedade está dividida em classes. Talvez você se lembre
de sua sala de aula, daquele momento, nem sempre fácil, de fazer grupos. Tente
agora se lembrar daquele momento que o professor(a) solicitava a união da sua
classe com a de mais três coleguinhas. Como era difícil unir sua classe com
aquele(a) colega que você não tinha muitas afinidades. Algo semelhante acontece
em nossa sociedade, no entanto, quando tratamos da questão de classe econômica,
não lhe é dada a possibilidade de escolher com quem você vai se unir. É como se você
chegasse na sala e seu lugar e a sua classe já estivessem determinadas, como também, com quem
você pode fazer ou não grupo.
Salvo algumas exceções, as relações sociais acabam se
fortalecendo entre semelhantes, entre pessoas que compartilham um mesmo modo de
consumo, um mesmo espaço de lazer, ou ainda, um mesmo estilo de vida. O que
normalmente marca a união dessas pessoas, num primeiro momento, não são as suas
escolhas, mas o padrão econômico herdado, isto é, o simples
fato de terem nascidos em grupos mais ou menos favorecidos economicamente. Ou
você acha que é um simples acaso o número de tramas de novelas ou de filmes que
abordam o milagre da paixão como fenômeno capaz de romper o isolamento econômico
entre classes econômicas distintas?
Deste modo, a sacada, vestida de colete amarelo, negava o absurdo de passar desapercebida pelo mundo. Vestia-se com aquele
colete em prol de uma classe social específica. Era a classe
daqueles que estavam sendo prejudicados pelo aumento dos impostos sobre produtos
energéticos, tais como a gasolina, derivado do petróleo. O colete amarelo, não era qualquer colete amarelo, mas estava carregado de simbolismo, sua existência se dava em função de uma classe
da sociedade francesa, a classe dos consumidores de combustível; e sua
utilização trazia a memória uma nação não muito afetuosa com qualquer populismo político.
Todo sábado que lá estivemos – eu alguns mais que minha
esposa –, encontrávamos aquele colete vestido pela sacada também nas pessoas. Nas
esquinas das ruas, lá estavam os coletes amarelos conversando sobre os rumos da
França. Foi a sacada que nos ensinou que o povo francês não só guarda em seu
tecido neuronal a memória viva das lutas travadas no passado, como as deixa vivas até o
período presente. Povo que compreendeu, desde a Revolução Francesa, que a história da sua cidade e de seu país somente
será contata a partir da participação direta da população. O protagonismo da
história não é terceirizado. Agora, eu, aqui em meu país, fico pensando se alguma de nossas sacadas se atreveria a lançar alguma moda. Será que um dia teremos sacadas tão criativas e engajadas com o presente? Ou será que o destino nos pregou uma peça e fez de nossas sacadas simples varais de cortiços?